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| Cara de smile - foto: Tiago Rattes de Andrade. |
No mês de maio eu fui o MC da vez no Eco. E como sempre fazemos, inseri alguns poemas entre uma chamada de poeta e outra... Tenho buscado algumas referências, novas para mim, e que de certa forma costurem a noite, fechando a colcha no decorrer do evento.
Dessa vez fiz o relato no blog do Eco (para ler clique aqui) e joguei nos ouvidos os poetas Deley de Acari, Pio Vargas e André Capilé (irmão).
Os textos seguem abaixo! Degustem!
QUESTÃO DE FÉ
Sei que Deus existe,
mas não creio Nele,
nem o amo.
Em questão de Fé,
eu creio,tenho Fé
e amo deslavadamente
as Deusas...
E só a Elas faço reverência
quando germinam dentre
as pedras dos rios
límpidos transmutadas
nos corpos
de divinas fêmeas.
(Deley de Acari)
A MULHER QUE QUERO
Eu quero uma mulher de aço
que seja leve como a pena,
cujo sorriso seja um laço
a me prender como um poema.
Eu quero uma mulher madura
a me guiar durante o dia,
quando for noite ser vadia
a me domar sem armadura
e a me tomar como num sonho,
uma mulher que seja a lua
dentro do sol em que me ponho.
Eu quero uma mulher de ferro
com um aplauso pra quando acerto
e um perdão pra quando erro,
como alguém que seja o brilho
dentro do escuro em que me encerro.
Uma mulher que seja plena
uma amante de verdade
que seja motivo de lembrança
e um intervalo na saudade
que, diurna, me cuida,
mas que, noturna me invade.
Eu quero uma mulher-mãe
que seja vinho, cerveja,
refrigerante, champanhe,
que me entenda se viajo
e se fico me acompanhe.
Eu quero uma mulher toda
que me edifique como homem
e algo depois me exploda.
(Pio Vargas)
URUBU
I
um bicho
avançado na corda
come o necessário íntimo
o bicho
se encosta ao acessório
suspenso eu
um bicho
assumo o risco
de ver o arrepio-
bicho
que nenhuma perna
enganada vai dizer
cínico
o gelado do ritmo
de bicho
II
avançado na corda
atento ao frio feito
um bicho
que escorrega feito
um verme
rói a parede ciã
da carne virada
da fruta intestina
e rói mais
e rói
e larga os ossos
os cabelos
o peso do morto
não menos e não
menos bicho
torna ao fio de corda
farto sem precisar
medir o equilíbrio
III
eu
não mais
me sei sequer
um bicho
me sei talvez
o bicho
que na corda
é hábil e leve
pássaro rapace
bicho quê
ave na ventania
não carece de ninho
(André
Capilé)